David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Augusto Cury apoiar Flávio Bolsonaro deveria surpreender alguém?

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Augusto Cury apoiar Flávio Bolsonaro deveria surpreender alguém? O cara é autor de autoajuda, defende que os problemas não são estruturais e sim individuais. Ou seja, uma questão de vontade e mentalidade.

Ele é a personificação da negação de que devemos mudar estruturas e sim atribuir falhas e problemas a uma questão individual. “Se você não venceu, a culpa é sua. Falta mentalidade, falta foco, falta disciplina, falta ‘gestão da emoção’.” O mundo é apresentado como um terreno neutro onde cada um colhe o que planta.

Nessa lógica distorcida e falsa, não há estruturas, não há desigualdade, não há privilégio. Há apenas indivíduos e suas escolhas. A literatura de autoajuda, assim como a posterior cultura coach, vieram para validar o neoliberalismo, que é o que a direita bolsonarista abraçou desde sempre para ter poder econômico também para fazer sua guerra cultural e falsear narrativas.

É no neoliberalismo que Cury e o bolsonarismo se encontram – porque os dois são dependentes dele e não querem deixar de alimentá-lo e promovê-lo, porque eles não apenas prosperam, como só podem existir a partir dele. Afinal, se as pessoas tiverem mais consciência social, questionarem mais as desigualdades e entenderem como tudo isso envolve olhar para os problemas estruturais, e não isoladamente para os indivíduos, nem Cury nem os Bolsonaro prosperam.

A autoajuda e o bolsonarismo compartilham o solo da individualização dos problemas estruturais, da responsabilização do indivíduo pela própria situação; e no caso, do bolsonarismo, que é um emaranhado de contradições, também da invenção do inimigo, de um bode expiatório – de colocar oprimido contra oprimido; mas sem que um deles se veja como oprimido porque reivindica também, e até sem perceber, o lugar de oprimir.

Flávio Bolsonaro teve esmagadora maioria de votos em cidade de SC com má fama associada ao neonazismo

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Timbó (SC), uma das cidades onde Flávio Bolsonaro teve proporcionalmente mais votos (76,5%), possui registros históricos e ocorrências policiais recentes relacionados ao neonazismo. Estudos históricos também apontam que a primeira seção oficial do Partido Nazista no Brasil foi fundada na região de Timbó, em 1928, chegando a contar com centenas de membros filiados nas décadas de 1920 e 1930.

Em setembro de 2021, a Polícia Civil de Santa Catarina encontrou uma fábrica clandestina de símbolos nazistas em Timbó. O local funcionava em dois contêineres e produzia bustos de Adolf Hitler, bandeiras, insígnias, canecas e peças com a suástica. Na mesma operação policial de 2021, foi localizado um bar na cidade decorado com imagens e forte simbologia ligada ao regime nazista e ao supremacismo.

As investigações da Justiça de SC apontaram que os objetos produzidos na cidade abasteciam um site de comércio eletrônico focado em militaria e materiais de extrema direita. Esses episódios colocaram o município de forma recorrente nos relatórios de monitoramento de células extremistas e neonazistas no Sul do Brasil realizado por forças de segurança e pesquisadores.

É preciso parar de eleger quem legisla para os mais ricos

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Lula e Haddad têm falado a cada ano sobre o esforço para tributar os ricos. Daí o governo envia para o Congresso uma pauta que só pode avançar passando pelo Congresso. O ponto é que as pessoas elegem exatamente para o Legislativo uma maioria que atua em favor da elite econômica porque é dela que recebe financiamento, apoio e privilégios. E por isso, jamais atuará contra os interesses dela. Então o governo fica de mãos atadas, e não consegue desonerar impostos sobre as classes baixas e médias.

Daí os políticos que antagonizam o governo fazem o jogo da falsidade, tão comum a eles. Culpam o governo por algo que eles mesmos fazem de tudo para impedir que avance. E desta vez elegeram um Congresso muito pior em matéria de trabalhismo e economia. Não por acaso, os ricos pagam menos da metade de impostos que a classe média, e a diferença é ainda maior em relação às classes mais baixas. Continuem votando na direita e no neoliberalismo.

E o mais bizarro é que, enquanto isso, muita gente está ignorando projetos reais de transformação (políticas que melhorariam a vida da população) para se engajar em pautas de costumes fabricadas para distorcer o debate. E não percebem o quanto isso é conveniente para ofuscar os assuntos que deveriam ser a verdadeira prioridade: salário digno, alimentação de qualidade, saúde, moradia, educação, etc. A guerra cultural da direita não é um acidente. É uma cortina de fumaça. E quem lucra com ela é quem não quer que a população olhe para o andar de cima.

O Bolsa Família sobrecarrega os trabalhadores?

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Uma mulher compartilhou que o Bolsa Família sobrecarrega os trabalhadores – uma narrativa que tem sido muito explorada pela direita bolsonarista nas redes sociais.

Enquanto o Bolsa Família deve movimentar R$ 158 bilhões em 2026 (destinados a cerca de 19,9 milhões de famílias), os ricos no Brasil, por meio do forte lobby no Congresso, terão uma renúncia fiscal de R$ 903 bilhões.

Desse total, a Unafisco classifica pelo menos R$ 618 bilhões como “privilégios tributários” – benefícios sem contrapartida econômica ou social comprovada. A diferença entre os valores é brutal.

Enquanto o Bolsa Família passa por supervisão e fiscalização, a renúncia que beneficia os ricos carece muito mais de transparência, operando como um “orçamento paralelo” sem a mesma vigilância.

A mulher que compartilhou a mensagem atacando o Bolsa Família não é rica. Ela é da classe trabalhadora. E ela está defendendo, sem saber, os interesses de quem realmente tira dinheiro dela: os bancos, os rentistas, os grandes empresários e ruralistas que pagam menos impostos que ela – e que, quando confrontados, repetem o clichê de que “geram empregos”.

Como se emprego não fosse gerado por demanda, por consumo, por renda na mão do trabalhador. Como se isenção fiscal para rico fosse sinônimo de prosperidade. Não é. Quando a desproporção é grande, como a realidade escancara, não é estímulo, é privilégio.

O Bolsa Família não é o problema. O problema é um sistema tributário que faz o pobre pagar mais e um sistema de propaganda que convence o pobre a culpar outro pobre pela sua própria miséria. A “lógica” que eles criam é falsa, mas é funcional para quem está no topo. E é por isso que ela continua sendo repetida.

Ademais, você não vai encontrar a direita defendendo uma proporcionalidade de impostos mais justa, porque historicamente isso nunca foi uma bandeira da direita, que no Brasil é economicamente neoliberal e faz lobby no Congresso tanto pela manutenção quanto pelo aumento dessa distorção.

Basta olhar para quem está defendendo que os mais ricos paguem mais impostos, visando corrigir essa disparidade que é também uma grande forma de injustiça. Com certeza, não é a direita nem os neoliberais.

Imagine ser um iraniano…

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Imagine ser um iraniano, sentado em sua casa em Teerã, Isfahan ou Shiraz. Ao seu redor, há ruínas de 2,5 mil anos ao lado de arranha-céus modernos. Você cresceu ouvindo histórias de Ciro o Grande, o persa que libertou os judeus do cativeiro na Babilônia e declarou o que muitos consideram a primeira carta de direitos humanos. Você estuda a poesia de Hafez e Rumi, que são amados em diferentes lugares do mundo. Você sabe que, enquanto os ancestrais de Trump ainda viviam em tribos na Europa, os seus já construíam impérios e desenvolviam matemática, astronomia e filosofia.

E de repente, um magnata do setor imobiliário de Nova York, que ficou famoso por demitir pessoas em um programa de TV e que provavelmente nunca leu um livro de história na vida, aparece na televisão e diz que vai “destruir completamente” seu país. A reação não é medo. É um misto de espanto, desdém e, para muitos, uma risada amarga. É como ver uma criança fazendo caretas para um ancião. A arrogância é tão desproporcional, tão ignorante do contexto, que se torna quase cômica.

Para um iraniano com senso de história, Trump é um acidente de percurso; apenas mais um presidente dos EUA em uma longa lista. Eles já viram presidentes “da grande potência” irem e virem. Eisenhower (golpe de 53), Carter (revolução), Reagan (apoio a Saddam), Bush (guerra no Iraque), Obama (aproximação), Trump (hostilidade), Biden (tentativa de volta ao acordo). Cada um com sua política, cada um passageiro. O Irã continua.

Trump, que não duvido que ache que iranianos são árabes, age como se a história começasse quando ele entrou na política (o mal do presenteísmo absoluto). Fala em “fazer o Irã se curvar” sem saber que tentaram isso antes e falharam. Muitos iranianos veem a arrogância de Trump não como força, mas como sintoma de fraqueza. Um país confiante em seu poder não precisa gritar tanto. Quem grita “sou o maior” o tempo todo geralmente está tentando convencer a si mesmo.

Para Trump, o mundo é feito de indivíduos e transações. Países são como empresas. Se você pressionar o suficiente, o CEO (líder) vai ceder para salvar seus ativos (economia, poder). Tudo é negociável. Na visão iraniana, o mundo é feito de comunidades e história. A nação é um organismo vivo que existe antes de você e continuará depois.

A honra coletiva vale mais do que o conforto individual. Algumas coisas não são negociáveis, porque estão ligadas à identidade. Ademais, o que pode ser mais antiético do que matar 153 crianças em uma escola e ainda negar autoria criando uma narrativa sem sentido de que o ataque foi iraniano? Não há base lógica para isso.

Trump ignora que o Irã é a antiga Pérsia. Achar que se trata de um país qualquer, só porque é um país que não figura como uma das maiores potências capitalistas do mundo é um cálculo muito tosco e ingênuo. Muito do que conhecemos como ocidental já existia na Pérsia. O Irã não é apenas um país antigo, é uma das civilizações fundadoras do mundo como o conhecemos.

Os gregos, que deram origem ao que chamam discutivelmente de “civilização ocidental”, aprenderam muito com os persas, inclusive quando estavam em guerra com eles. Alexandre o Grande, ao conquistar a Pérsia, ficou tão impressionado que adotou costumes persas. É um grande equívoco avaliar um país apenas pela sua posição no capitalismo global. O Irã não é uma nação jovem tentando se afirmar; é uma civilização com memória milenar que já viu impérios virem e irem.

Quando um iraniano resiste a pressões dos EUA, não é apenas “nacionalismo”. É a memória de pertencer a uma civilização que ensinou o mundo a administrar impérios enquanto os ancestrais de muitos de seus atuais adversários viviam em tribos. Esse orgulho é mais profundo e mais resiliente do que qualquer lealdade a um regime específico.

Lembre-se que a Pérsia sobreviveu a Alexandre o Grande; invasões árabes (que mudaram a religião, mas a cultura persa absorveu e transformou o Islã); invasões mongóis (que destruíram Bagdá, mas Teerã resistiu); o imperialismo britânico e russo no século XIX; o golpe da CIA em 1953 e oito anos de guerra com o Iraque com apoio ocidental a Saddam Hussein.

Essa história ensina aos iranianos algo que charts de poderio militar não medem, ou seja, paciência estratégica. Eles sabem que impérios caem, que potências se cansam, que eleições mudam governos. Eles podem esperar, já que se trata de uma civilização com 2,5 mil anos de história registrada.

Enfim, os persas nos deram a primeira declaração de direitos humanos. Nos deram estradas, correios, moeda e padronização de pesos e medidas. Nos deram poesia muito antes do Ocidente. Nos deram ciência que iluminou a Idade Média – incluindo astronomia, álgebra, algoritmos, geometria e trigonometria. Nos deram contribuições fundamentais à arquitetura. Também nos deram palavras que são usadas sem que se saiba ou reconheça sua origem.

E o persa Avicena foi a referência em medicina no Oriente e no Ocidente por cerca de 600 anos – graças ao seu “Cânone da Medicina”. Também nos deram azulejos e mosaicos, tapeçaria e instrumentos musicais (foram precursores de instrumentos de cordas como o violão); e a ponte que salvou o conhecimento grego para que pudesse renascer na Europa, além do primeiro império multicultural da história. A própria filosofia ocidental tem raízes persas, assim como o que podemos chamar de conceitos éticos (Ciro).

Ademais, irônico é que a eleição de Trump, que ataca o Irã, usando inclusive o pretexto de “ilegitimidade” e “defesa da democracia”, algo que ele tem mudado recentemente, ao dizer que o que importa já não é democracia, “mas alinhamento aos EUA”, é considerada questionável. Imagine se algum país o considerasse ilegítimo e decidisse bombardear os EUA… E Khamenei morreu e os bombardeios continuam…Enfim, é sobre definir os rumos de um país dentro da agenda trumpista – ou tentar destruí-lo se não aceitar isso; algo que Trump nem esconde mais, ao contrário de meses atrás.

E mais, por que ele não leva “democracia” para a Arábia Saudita (monarquia absoluta sem eleições, execuções em massa, assassinato de jornalistas no consulado) ou para os Emirados Árabes (monarquia sem eleições, trabalho análogo ao escravo, bombardeio de vizinhos no Iêmen)? Porque são grandes compradores de armas produzidas nos EUA.

Só a Arábia Saudita assinou acordos militares recordes (superiores a US$ 140 bilhões). Já os Emirados Árabes são o terceiro maior importador de armas do mundo – comprando dos EUA caças F-35, drones MQ-9 Reaper, mísseis Patriot, sistemas THAAD…Enfim, o Irã para Trump não é uma questão de direitos humanos e sim de subjugação econômica – por ser um país incapaz de controlar e de não se submeter aos seus interesses como outros.

A ira ocidental contra o Irã tem um tempo bem determinado no século passado, que em 1951 ficou conhecida como “O Pecado de Mossadegh”. O então primeiro-ministro democraticamente eleito no Irã nacionalizou o petróleo iraniano. Até então, o petróleo era controlado pela Oil Company (atual BP – antes British Petroleum e hoje uma gigante britânica transnacional de energia), que pagava migalhas ao Irã (só 16% dos lucros) e levava quase tudo para a Grã-Bretanha.

Mossadegh virou herói popular no século passado, mas cometeu “o pecado imperdoável” de tirar o petróleo do controle ocidental. Trump quer retomar esse controle, só que para os EUA. Por fim, se os EUA acreditassem que o Irã tem armamento nuclear, por que se arriscariam em atacá-lo? A lógica de dissuasão nuclear é clara há 80 anos. Quero dizer, você não ataca uma potência nuclear a não ser que esteja disposto a sofrer um golpe devastador em retaliação.

O Irã é punido por insistir em existir fora do controle dos EUA, que sempre se coloca em posição de “excepcionalismo determinante da hegemonia global”; por buscar desdolarização (negociar petróleo em outras moedas); aliar-se à China e Rússia (BRICS) e servir de exemplo de independência para outros países.

Conflitos sobre consumo e política no movimento vegano são tema da minha pesquisa publicada pela UFMS

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Com pouco mais de 200 páginas, “Veganismo ou veganismos? Tensões discursivas sobre consumo e política no movimento vegano” é uma pesquisa de minha autoria publicada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais (PPGCult) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em que discutimos os sentidos do veganismo, ou que estão em relação com o veganismo, e propomos uma reflexão sobre o movimento vegano a partir de conflitos entre diferentes abordagens do veganismo.

Buscamos compreender primeiro o surgimento e influências do veganismo (o que precede o veganismo), assim como o seu desenvolvimento e suas especificidades no Brasil. O primeiro capítulo é voltado a uma trajetória das posições contrárias à violência, morte e usos pelos humanos, ou, uma arqueologia antiespecista, em que refletimos também sobre como algumas influências ao se pensar o combate ao especismo se sobressaíram e se sobressaem a outras.

O segundo capítulo concentra-se no surgimento do veganismo contemporâneo – os sentidos do consumo e da política no veganismo, as definições, interpretações e o estabelecimento das diferenças e das primeiras ressignificações. O terceiro capítulo é sobre o movimento vegano em disputa: estratégias, astúcias, trampolinagens e apropriações que envolvem as diferentes abordagens e os antagonismos que são estabelecidos entre os veganos.

A pesquisa, que aponta que o movimento vegano em si já é um movimento de mediadores socioculturais, por ampliar os sentidos do consumo e da política não somente na relação do ser humano com o ser humano, explora as mudanças e pluralidades discursivas que se intensificam com a popularização do veganismo e com base nas diferenças entre seus sujeitos.

O estudo, que analisa, por exemplo, os conflitos entre o veganismo pragmático e o veganismo popular, e que envolvem uma disputa de sentidos, é desenvolvido em diálogo com Jesús Martín-Barbero e Néstor García Canclini, dois autores dos Estudos Culturais na América Latina, e considerando seus conceitos de mediação e negociação – explicados e contextualizados na pesquisa – que contribuem também para pensar o contraditório envolvendo diferentes discursos nas abordagens do veganismo; onde se encontram, se antagonizam e o que pode ser problematizado sobre isso em relação ao que é tão importante ao veganismo – o seu crescimento.

Na pesquisa, transitamos por diversas áreas do conhecimento e observamos também que as disputas no movimento vegano estão mais relacionadas a uma questão de meios do que de fins. Não haver ainda sinal de um “mundo vegano” também é o que leva veganos a entrarem em conflito sobre o que fazer para mudar essa realidade e quais relações estabelecer para superar a normalização dessa lógica de dominação. Isso é perceptível a partir das abordagens trazidas na pesquisa, incluindo as disputas em torno dos sentidos do consumo e da política e que se tensionam em torno do idealismo-pragmatismo.

Mas também é notório que o movimento vegano como um todo existe inerentemente para expandir a percepção sobre empatia, respeito, solidariedade e alteridade ao estender consideração aos animais não humanos. Isso coincide com o que é relevante aos Estudos Culturais porque, como lembra-nos Canclini, os Estudos Culturais também são sobre uma política de reconhecimento e uma afirmação de solidariedades a partir do que é consideração e inclusão.

Saiba Mais

O uso da primeira pessoa do plural na publicação sobre a pesquisa, assim como na própria pesquisa, se deve ao fato de que a pesquisa foi realizada com a orientação da professora Dra. Patrícia Zaczuk Bassinello.

Em síntese, os Estudos Culturais são um campo de investigação interdisciplinar (permite transitar por diversas áreas do conhecimento) que no Brasil teve início com os Estudos Literários e volta-se para os estudos dos sentidos que são construídos em sociedade, assim como as mudanças desses sentidos.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

“Paddleton”, um filme sobre cumplicidade e o direito de não sofrer

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Assisti a um filme de drama com comédia na Netflix lançado em 2019 que realmente me agradou. O título é “Paddleton”, em referência a um esporte criado por dois amigos que têm uma profunda relação de cumplicidade.

Um deles descobre que tem câncer e já não muito tempo de vida. Ele decide não fazer o tratamento e consegue uma autorização para tirar a própria vida em casa antes que a doença se torne dolorosa. Então pede ajuda ao amigo para morrer “da forma mais confortável possível”.

Eles viajam de carro por seis horas até chegarem a uma cidadezinha formada por imigrantes dinamarqueses. Lá, compram o “medicamento” que servirá para que Michael (Mark Duplass) tire a própria vida sem que haja sofrimento. Há algo de irônico e estúrdio nisso.

Andy (Ray Romano), ainda incomodado com a ideia, compra um cofre de brinquedo na mesma farmácia e decide esconder o medicamento, na tentativa de impedi-lo de morrer – justificando que um “milagre” poderia acontecer e Michael ter sua saúde restabelecida.

Mas, no fundo, e pelo peso da realidade que os dois dividem em suas solitárias vidas que encontram cumplicidade na partilha de convergências como um filme de kung-fu dos anos 1970 e jogos desconhecidos pela maioria, eles entendem que dor e partida são inevitáveis.

Ao longo da trajetória, há muitas boas sacadas de humor sobre os paradoxos da vida. A morte é tão temida quanto escarnecida. Em “Paddleton” é interessante a ausência de apelos melodramáticos.

A solidão é tão espaçosa quanto a solitude, com quem se confunde. Até mesmo o sofrimento recebe uma construção diferenciada, de algo que, quando não nos consome, somos nós que o consumimos – como em uma troca.

É um filme com poucos personagens e cenários – o que importa são os dois amigos, a relação entre Michael e Andy, a doença e suas percepções sutis, singelas, satíricas e pueris da vida.

A fotografia também chama a atenção porque por vezes transmite algo de morno e letárgico, talvez em referência ao que nos cabe dentro do que definimos como normalidade da vida diante daquilo que foge ao nosso controle.

O desenho e as sementes do andarilho

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Na minha infância, havia um andarilho que passava em frente de casa todos os dias – nunca pedia nada. Carregava um caderno com folhas em branco debaixo do braço. Do outro, levava um envelope grande com sementes. Um dia, quando eu estava sentado no meio-fio, ele se aproximou.

Ficou sorrindo e me olhando. Eu não sabia que tinha um pouco de pó de grafite no meu rosto. “Faz assim”, disse em tom baixo e balançando a cabeça. Balancei e ele abriu o caderno. O pó deitou sobre uma das folhas. Parou de sorrir e passou a mão suavemente por ela, usando dois dedos – os indicadores de cada mão.

Quando olhei outra vez para o caderno, vi um desenho idêntico ao meu rosto criado em não mais que 20 segundos. Ele tirou a folha e me entregou sem dizer palavra. Noutro dia, a folha já estava em branco. Fiquei lá fora o esperando passar outra vez pra perguntar o que tinha acontecido.

Ele apenas sorriu e sinalizou pra eu formar uma concha com as mãos. Me deu algumas sementes e disse que se eu as plantasse naquele dia, elas não desapareceriam. Mas se deixasse para o dia seguinte, elas correriam. Foi o que fiz. Quando a chuva-de-ouro nasceu, soube que ele morreu – cardiopatia congênita.

 

Written by David Arioch

May 14th, 2020 at 12:18 am

Coleirinha também quer viver

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(Foto: Jorge Schlemmer/IBC)

Uma coleirinha caiu da árvore enquanto um homem caminhava pela calçada. Estava viva, mas com as asas machucadas, sem condições de voar. Ele a pegou com cuidado, a ajeitou em uma espécie de ninho com a jaqueta e saiu caminhando.

Em casa, improvisou curativo e porção de alpiste e painço. Ficou observando a passarinha dentro de uma caixa de madeira com dois furos redondos que permitia deixar o biquinho pra fora.

“Deve ter de 40 a 50 dias de idade”, pensou. À noite, colocou a caixa ao lado da cama e começou a dar toquinhos. Dois toquinhos faziam a coleirinha reagir com duas bicadas leves. Achou graça. Três toquinhos e três bicadas, quatro toquinhos e quatro bicadas…

Pela manhã, como não havia mais bichos em casa, a deixou solta – com comida e água à vontade. Apenas fechou as janelas para evitar que se machucasse ou fosse capturada. À tarde, a levou ao veterinário. Como imaginou, não era grave, e em poucos dias poderia partir.

Na semana seguinte, já recuperada, começou a voar dentro de casa. Hora de partir. Abriu a janela e a coleirinha voou até escapar do seu campo de visão. “Missão cumprida”, pensou.

À noite, enquanto chuviscava, ouviu barulho familiar. Duas bicadas intervaladas, três bicadas intervaladas. Assim que abriu a janela, a coleirinha caiu em sua mão, sangrando e contraindo o que restou das asinhas molhadas.

Começou a chorar quando viu os chumbinhos cravados em sua carne. “Isso não pode ser coincidência”, disse. Passou a noite acordado na sala de espera da clínica veterinária – vez ou outra observava a coleirinha de costas, fragilizada.

Fez promessa pela sobrevivência da passarinha. Dois meses depois, a coleirinha já saudável partiu para não mais retornar e Mauro fechou sua fábrica de chumbinhos.

Um bom presente para a Terra no Dia da Terra

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Fotos: Tras Los Muros/Eyes On Animals/Animals Matter/Sea Shepherd/HSI/Fur Free Alliance/African Wildlife Foundation/CBEE/Greenpeace

Depois de degradar espaços naturais, matamos até 72 bilhões de animais terrestres por ano e somente nos matadouros, ou seja, para consumir suas carnes (dados da PETA).

Matamos 790 bilhões de peixes em seus próprios habitats (de forma intencional ou “acidental”) e o total pode chegar a 2,3 trilhões por ano – sem contabilizar os criados em cativeiro (dados da Fish Count UK).

A pesca comercial fere gravemente e mata mais de 650 mil mamíferos marinhos por ano (dados da Animal Matters).

Matamos mais de 100 milhões de animais (incluindo camundongos, sapos, coelhos, porquinhos-da-índia, porcos, primatas e pássaros) em testes de produtos, vivissecção e outros experimentos a cada ano (dados da PETA, Cruelty Free International e HSI).

Matamos mais de 10 milhões de animais silvestres por ano apenas para arrancar seus couros e utilizar na indústria da moda (dados da Last Chance for Animals).

Mais de 40% dos anfíbios do planeta estão ameaçados de extinção, assim como um terço de todos os mamíferos marinhos. A humanidade já afetou negativamente 75% das terras do planeta e 55% dos ecossistemas marinhos (dados da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

Nos últimos 20 anos, matamos mais de um milhão de pangolins, animal que já estava aqui milhões de anos antes da chegada da humanidade (dados da African Wildlife Foundation), e que hoje tem seu nome associado ao coronavírus graças a nós.

Atualmente, 105.732 espécies conhecidas de animais estão ameaçadas de extinção no mundo todo (dados da União Internacional para a Conservação da Natureza).

Só no Brasil, e como consequência da destruição de espaços naturais, matamos por ano 475 milhões de animais atropelados nas rodovias brasileiras. São 15 animais silvestres mortos por segundo (dados do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas).

Um bom presente para a Terra neste Dia da Terra seria deixar de matar também seus filhos não humanos.